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COMISSÃO DA VERDADE DO RIO

Notícias

30/07/2015
Evento lembra violações de direitos humanos cometidas em hospital durante a ditadura

Ana Bursztyn Miranda começou seu depoimento dizendo que pouco teria para falar sobre o período em que esteve internada no Hospital Central do Exército (HCE). “Quase não me lembro dos fatos. Sei o que as pessoas me contaram”, disse ela, no Testemunho da Verdade – Hospital Central do Exército, realizado nesta quinta-feira (30/07). Além de Ana, outros quatro ex-presos políticos compartilharam suas experiências, todo o constrangimento sofrido, a medicalização intensiva utilizada e a negativa do hospital em entregar os prontuários médicos. O ato foi organizado pela Comissão da Verdade do Rio e pelo Projeto Clínicas do Testemunho, vinculado à Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.


“Ameaçavam me dar choques nos testículos se eu não tomasse os medicamentos que eles mandavam. No início eu tentei burlar os médicos, porque eu ficava muito dopado e, às vezes, dormia dois dias seguidos. Via muitas pessoas saindo dali enroladas em panos brancos, porque não aguentavam o choque. Fiquei com medo e passei a obedecer todas as ordens”, contou Antonio Rodrigues da Costa, ex-paraquedista do Exército, que ficou nove meses internado no HCE, tendo passado, inclusive, pelo setor psiquiátrico do hospital, por ser descrito como “muito agressivo e perigoso”.


Fátima Setúbal contou que passou o aniversário de 19 anos internada no HCE depois que foi presa pela segunda vez, em abril de 1972. Ela precisou ser levada ao hospital por conta de uma hemorragia como consequencia das torturas sofridas no Dops. Como sequela adquiriu um glaucoma em um dos olhos e uma provável tuberculose. “Eu parecia uma criança pedindo pelo meu bolo e pelo meus pais. O enfermeiro Argolo se sensibilizou com a situação, me trouxe um bolinho e pediu para o paciente, que estava do outro lado do corredor, cantar parabéns com ele”, lembrou ela, que ficou internada entre abril e junho de 72.
 

Marcos Arruda e Paulo César Azevedo Ribeiro também prestaram depoimento na atividade que contou com uma homenagem a Estrella D’Alva Bohadana, militante política que faleceu em maio desse ano. Estrella foi presa em 1970, aos 19 anos, e passou pelo Batalhão de Infantaria de Barra Mansa e pelo DOI-Codi, onde foi torturada e depois encaminhada ao HCE. Só descobriram onde ela estava, porque um enfermeiro avisou à mãe dela que Estrella havia sido internada no HCE. Estava grávida ao ser presa e sofreu um aborto em consequência da tortura, por causa de chutes na barriga.


Em setembro de 2014, a Comissão Nacional da Verdade e a Comissão da Verdade do Rio realizaram uma diligência ao HCE, com a presença de ex-presos políticos, quando foi solicitada a entrega dos prontuários médicos. O Exército, entretanto, negou a existência dessa documentação. Após denúncia anônima, membros do GT Transição do Ministério Público Federal fizeram uma operação de busca e apreensão no hospital, em 14 de novembro, encontrando diversos documentos datados de 1940 a 1969 e de 1975 a 1983 em uma sala trancada à chave, localizada no prédio anexo do HCE.


O procurador Sergio Suiama, representando o Grupo de Trabalho “Justiça de Transição” da Procuradoria da República, falou sobre as investigações quanto ao caso Raul Amaro, torturado e morto no HCE e as dificuldades encontradas junto ao Poder Judiciário para dar continuidade à investigação. “As consequências da ditadura continuam influenciando no presente e a estrutura do Poder Judiciário continua incluindo práticas e pessoas daquela época”, criticou ele. Também integraram a mesa de abertura do evento Rosa Cardoso, presidente da CEV-Rio, Wadih Damous, ex-presidente da CEV-Rio e Deputado Federal (PT/RJ) e Vera Vital Brasil, coordenadora do projeto Clínicas do Testemunho.

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